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Visualização dos artigos postados o: 07/05/2014

07 Maio 2014 

Maria

"Ave maria cheia de graça o senhor é convosco…", "Santificado seja vosso nome…" em murmúrios, de olhos cerrados, Maria entrava em transe após repetir as orações nas 59 bolinhas de seu terço. Mas, apesar disso, não acreditava em Deus.
Todos os dias, ao repetir o ritual, Maria pedia para ser tocada pela fé divina. Sem sucesso.
Desde que pediu a aposentadoria e teve o primeiro neto, Maria se viu na obrigação de assumir seu papel de vovó tradicional. Não levava o mínimo jeito.
Maria passou 28 anos sendo modelo e agora estava velha pra isso. Para quem sempre fora vaidosa, trocar uma paleta de batons por agulhas de crochê significava uma abdicação violenta.
Ainda não se acostumara com a largura dos quadris, nem com a pele seca e com as mãos de veias saltadas. Assumira as perdas sem se submeter a nenhum reparo, como um prédio que se deixa ruir sem que ninguém conserte suas fundações.
Maria não se olhava no espelho e nem queria mais sair em fotos. Aprendera a fazer empadas e bordados e rezava. Rezava tentando se elevar. Rezava pra ser sublime, sem corpo, sem memórias.
E cada vez mais se abatia.
Sua prole tão bela, com sua genética poderosa, tentava convencer de que ela poderia se cuidar e ser uma "velhinha bonita". De estômago embrulhado e um sorriso fatalista nos lábios, Maria dizia: 
- A velhice nunca é bela.
Pobre Maria! Não enxergava mais a beleza clássica das antiguidades mesmo com os óculos de fundo de garrafa que passara a adotar. E fazia do seu passado mero acaso e não história de um belo legado.
"Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém."
Assim, Maria, aos poucos, se sepultava.
Admin · 55 vistos · Deixe um comentário